sábado, 3 de outubro de 2015

Mitos e verdade sobre H. P. Lovecraft



Existem algumas questões que são muito recorrentes entre os fãs e simpatizantes da obra de H. P. Lovecraft que são geralmente entendidas de forma errada. É visando esclarecer essas dúvidas que os apresento esse post. Essas informações fazem parte de uma comunicação que apresentei em um evento, e disponibilizarei a versão completa, com citações e referências bibliográficas, abaixo.





“Lovecraft era racista.”

Verdade, mas há muita coisa envolvida nessa questão. Primeiro de tudo devemos considerar seu contexto histórico. Lovecraft nasceu em 1890. A escravidão foi definitivamente abolida em 1865, após o termino da Guerra de Secessão, ou seja, apenas vinte e cinco anos antes de seu nascimento. Apesar da abolição, não houve a tentativa de inserção do negro na sociedade. Inclusive com a consolidação dos EUA como nação, no fim do século XIX, um verdadeiro cidadão era aquele branco e abastado. Sendo assim, na época era completamente “normal” para famílias tradicionais norte-americanas ter medo e aversão a indivíduos negros. Como não é segredo para ninguém, o preconceito racial é um tema extremamente complicado na cultura americana até os dias de hoje. Na época de HPL não era ao menos considerada uma questão. Não havia mistura de etnias sob hipótese alguma. Por esse sentido, portanto, Lovecraft era fruto de seu meio. Acontece que os sentimentos negativos de Lovecraft não eram exclusivamente em relação a negros, mas sim a qualquer estrangeiro. É muito mais válido afirmar que ele era mais xenofóbico que racista. HPL crescera em uma família tradicional e conservadora, orgulhosa de sua descendência e eram os mais típicos ianques. Para eles, qualquer estrangeiro em suas terras estaria roubando suas oportunidades e pior, denegrindo sua raça pura.  Os anos em que Lovecraft viveu em Nova York foram os piores de sua vida por vários motivos, entre eles a forte presença de estrangeiros imigrantes, os quais ele simplesmente não aceitava. Fruto desses sentimentos convulsivos é o conto Horror em Red Hook, situado no bairro de mesmo nome na cidade de Nova York e cujo foco são personagens estrangeiras e “denegridas” de acordo com o narrador. A questão central no racismo de Lovecraft é que ele não suportava a miscigenação, era simplesmente esse fator que o causava desgosto por acreditar que a incompatibilidade de etnias resultaria em gerações menos inteligentes e deturpadas. Enquanto brancos procriassem com brancos, negros com negros e assim por diante, ele não se aborrecia. Acontece que esse ponto de vista ultraconservador não durou por toda a sua vida. É importante sabermos que Lovecraft mudou muito de ponto de vista durante seus anos. Em sua fase mais madura, já aceitava esses estrangeiros com maior compreensão e inclusive sua esposa de curto período, Sonia Greene, era judia.

“Lovecraft era muito solitário e tinha poucos amigos.

Mito. Provavelmente o maior mito que se ouve erroneamente sendo divulgado. Durante sua adolescência ele fora sim, solitário. Passara por uma depressão e não saia de casa. Mas isso durou apenas durante essa fase de sua vida. Através de suas cartas podemos conhecer a extensa lista de amigos que possuía. Correspondia-se com cerca de 50 a 75 pessoas. Apesar de se corresponder em um volume incrivelmente alto através de cartas, muitas dessas amizades aconteciam ao vivo. Lovecraft chegava a passar meses em outras cidades e estados (inclusive cidades no Canadá) visitando seus amigos e gostava muito de fazer isso. Todos os anos após o natal viajava até Nova York e se hospedava na casa de seu grande amigo Frank Belknap Long, e passava seus dias com todos os amigos que pudesse. Viajava para lugares como Nova Orleans e Flórida, onde permanecia semanas na presença de seus amigos. Lovecraft só não viajou mais por problemas financeiros. Entre seus melhores amigos estavam Long (citado anteriormente), Robert E. Howard e R. H. Barlow. A questão desse lado da vida de Lovecraft é que, durante muito tempo, até mesmo acadêmicos que o estudavam insistiam nessa questão da solidão. Foi o estudo mais profundo de sua vida, especialmente de suas cartas, que derrubou de vez todas essas falsas convicções.

Lovecraft escreveu muito mais cartas do que ficção.”

Verdade. Muitas pessoas acreditam, inclusive, que HPL desperdiçava seu tempo com cartas em vez de produzir sua literatura. Ele passava às vezes anos sem escrever um único conto novo, porém as cartas nunca deixava de escrever. Acontece que toda essa correspondência fez com que Lovecraft crescesse muito como pessoa, expandindo seus horizontes fechados de ianque conservador. Durante toda sua vida Lovecraft escreveu cerca de 100 mil cartas e apenas pouco mais de 60 contos (excluindo colaborações e ghost-writing). É válido lembrar que HPL também escreveu diversos outros textos não literários, como trabalhos científicos e jornalísticos. 

“Característica fundamental da obra de Lovecraft são criaturas pouco descritas, sempre com sua imagem em aberto para a nossa imaginação.”

Meio verdade, meio mito. A obra de Lovecraft não é consistente em relação a isso. Podemos, inclusive, separar visivelmente essa característica entre suas obras iniciais e suas obras mais maduras que compõe o Cthulhu Mythos. Em relação a esse primeiro grupo de obras, a afirmação está correta. Vejamos uma descrição da criatura Dagon, do conto de mesmo nome (1917): “Então, de repente, o vi. Com um leve rumor que marcou sua chegada à superfície, a coisa apareceu acima das águas escuras. Vasto como um Polifemo, horrendo, aquilo dardejava com um pavoroso monstro saído de algum pesadelo em direção ao monólito, ao redor do qual agitava os braços escamosos ao mesmo tempo que inclinava a cabeça hedionda e emitia sons compassados.” Como vemos, não há nenhuma descrição exata da criatura, mas sim palavras como “horrendo”, “monstro” e “hediondo” que deixam a imagem da criatura totalmente sob a vontade de nossa própria imaginação.
Agora vejamos uma descrição a respeito das criaturas Elder Ones, encontradas na obra Nas Montanhas da Loucura (1931): “(...) Orrendorf e Watkins encontraram o fóssil monstruoso de uma criatura desconhecida em forma de barril; provavelmente um vegetal, ou então um espécime gigante de radiário marinho desconhecido. Tecido (...) resistente como o couro, embora apresente espantosa flexibilidade em certas partes. (...) Um metro e oitenta de ponta a ponta, um metro de diâmetro nas extremidades. Parece um barril com cinco protuberâncias em vez de aduelas. Fraturas laterais, como que de ramificações menores, estão presentes no equador das protuberâncias. Nos sulcos entre as protuberâncias encontram-se formações curiosas. São cristas ou asas que abrem e fecham como leques. (...) Estas asas parecem ser membranosas e prendem-se à estrutura de um tubo glandular. Minúsculos orifícios visíveis nas pontas das asas. (...) Não sei dizer ao certo se vegetal ou animal. Diversas características de primitividade extrema.”. Dessa vez temos uma descrição extremamente minuciosa que nos possibilita ver a criatura da forma em que Lovecraft a imaginou. O espaço para nossa imaginação, nesse segundo momento literário de Lovecraft, sofre uma compressão imensa, e assim a afirmação em questão se torna falsa.

Lovecraft era ocultista.”

Mito. Lovecraft era materialista-mecanicista, o que significa que acreditava que tudo no universo se resumia à matéria. Assim, ele acreditava firmemente na ciência e suas descobertas, refutando qualquer explicação mitológica ou religiosa para o mundo. Durante sua infância o autor se aventurou sim, por algumas religiões como o paganismo romano e o islamismo, porém logo que definiu sua filosofia materialista refutou qualquer religiosidade possível em sua vida. Sob esse ponto de vista, o ocultismo pode ser analisado como simplesmente mais uma religião, sem lugar na vida de Lovecraft. Histórias sobre pertencer a certas seitas e cadeias ocultistas são apenas lendas e subversões, surgidas pela falta de estudo e entendimento na vida do escritor ou ainda pela simples vontade de mitifica-lo (ainda mais dentro do contexto de sua época com nomes como Aleister Crowley em foco). Apesar ainda de ter criado sua própria mitologia ficcional, Lovecraft depositou, até o fim de sua vida, toda sua confiança na racionalidade. Sua mitologia original, o Cthulhu Mythos, trabalha com a questão do extraterrestre, com um sentido de que não há deuses nesse universo, mas apenas criaturas poderosas em relação ao ser humano e que não dispõem relação direta com nossa raça. Assim como estão vagando ao acaso através do universo, também estamos nós. A simples tentativa de contato ou compreensão acerca dessas criaturas leva a humanidade à loucura ou morte fatal. Sendo assim, a utilização de temas lovecraftianos por correntes ocultistas e seitas satanistas não tem cabimento algum, uma vez que satanismo nada mais é do que uma vertente do cristianismo. Podemos concluir então, que tomar Lovecraft como ocultista, ou ainda utilizar seu Mythos como real, são ambas tentativas completamente falhas.


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